segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

"Brasil de Contrastes"

Bom Dia com alegria :)

Artigo publicado no Jornal Diário da Manhã, hoje, 30/01/2017, Seção Opinião Pública, página 27.



"Brasil de contrastes"
Sempre gostei de falar muito de corrida e nos artigos que, para minha felicidade, o DM publicou, o tema corrida predomina. Mas dessa vez, vou um pouco além e compartilho um pouco das coisas que a corrida me faz pensar ainda mais.
Fui criado como um garoto de classe média. Minha rotina era basicamente casa-escola-academia e nos fins de semana, algum restaurante, shopping ou uma balada com os amigos, nos meus tempos de solteiro. Basicamente, esse tipo de vida me permitia uma visão mais “rasa” sobre temas inerentes a desigualdade social, diferenças no perfil sócio-econômico, preconceito e outras discussões no que tange a vida cotidiana.
Me lembro com entusiasmo das aulas de História e Geografia nos tempos de escola, com duas Professoras que recordo com carinho e respeito. Professora Elma Selma ( História ), e Professora Zilmarina ( Geografia ). O papel dessas duas Professoras assim como de vários outros se revelaram fundamentais na minha vida, me permitindo pensar muito melhor e entender depois de anos tantos conceitos, conteúdos vistos naquelas maravilhosas aulas. Uma das coisas que me despertavam muita curiosidade era entender todo o contexto histórico do Brasil, desde os primórdios do Descobrimento e o mundo de forma geral, naquela coisa de 1° Mundo, 2° Mundo e 3° Mundo. Mas ver nos livros e transformar isso em prática pensante, entendendo o contexto a partir de experiência de vida, são outros longos passos.
A primeira vez que comecei a entender as diferenças sociais e a discrepância no estilo de vida aqui em Goiânia, foi há 12 anos atrás quando fui num passeio de “trenzinho” em um bairro pobre da capital. Com tantas crianças de baixa renda ali distribuindo sorrisos e se contentando com aquela experiência feliz, passamos por diversos bairros da região norte de Goiânia, em que pela primeira vez eu pude ver do alto daquele trenzinho, bairros com casas modestas, algumas em situação crítica, aqueles famosos bares de “fim de mundo” com uma infestação de gente sem camiseta, mulheres com vestes de gosto duvidoso,  usuários de drogas a céu aberto e tantas outras situações que incitaram em mim de forma permanente a discussão da discrepância de realidades sociais presentes em diversos bairros da Capital.
A formulação do meu pensamento e das minhas reflexões continuou acontecendo de uma maneira mais atenta e vivaz no momento em que comecei a realmente perceber que o mundo está muito além do que se vê. Logo depois me formei em Educação Física e prestei concurso público para Professor na Prefeitura de Goiânia. Quando fui tomar posse no cargo, o choque foi muito grande. Eu nunca imaginava que seria daquela forma. Estudei em escolas particulares a vida toda com um acesso material, estrutural muito diferente do que estava presenciando naquele momento.
Dei aulas numa Escola Municipal no Setor Criméia Oeste e não tive lá um ano muito prolífico. Primeiro pela necessidade de adaptação, a inexperiência, os problemas de convívio. Ali eram muitas coisas acontecendo. Realidade muito diferente do que eu imaginei, embora tenha feito estágio na época de Faculdade. Mas uma coisa muito diferente, é quando você assume o “barco”. Até no relacionamento interpessoal foi um choque. Eu tinha 22 anos quando assumi e era disparado o professor mais novo do local.
Anos se passaram, as vivências cada vez mais intensas e meu olhar sempre direcionado na sensibilidade de quem muito lamenta ver a situação por vezes caótica de parcelas do povo brasileiro, imerso em tantos problemas, como falta de acesso a uma saúde pública satisfatória, corrupção.
Uma das épocas mais ricas da minha vida foi quando pude vivenciar a realidade de moradores de rua, trabalhar com políticas assistenciais. Aprendi a simples diferença entre “morador” de rua e “situação” de rua. Como dói ver um jovem em estado crítico, perambulando pelas ruas da cidade, viciado em crack. Poderia ser eu. Antes de qualquer julgamento, vamos olhar essas pessoas de perto. Muitos se perderam e o caminho de volta é muito doloroso e por vezes impossível. Sou contra dar “esmola”. Existe uma responsabilidade do poder público com essas pessoas, infelizmente omisso e ineficaz.
Estive em São Paulo em ocasião da Corrida de São Silvestre. Como de costume chego um dia antes. Nesse ano, fui de Ônibus para São Paulo. Chegando na cidade, percebendo a cidade de contrastes, com bairros ricos, pobres, essa discussão em mim voltou a aflorar com toda a força.
A corrida, quando feita fora de locais como Praças e Parques, te leva a todo canto da cidade. Uma das coisas que me fizeram apaixonar pela corrida, foi a possibilidade de percorrer ruas, bairros das cidades onde visito e poder olhar atentamente detalhes que passam despercebidos por muitos. Exemplo: Você está em São Paulo, hospedado no Bairro Jardins, por exemplo. Quer conhecer o Parque Ibirapuera. Naturalmente muita gente vai de táxi, embora seja perto dali. Porque não correndo, caminhando? Quando você passa por essas ruas, você acaba vendo muitas coisas bacanas.

Me chamou muito a atenção quando fui ao famoso “Mercadão” de São Paulo, e perceber nas redondezas a quantidade de moradores de rua e a sujeira predominante nos locais ao redor. Um local tão tradicional, com uma beleza sem igual lá dentro. Do lado de fora, uma faceta feia não só da cidade, como do nosso País. Não muito distante dali, famosos pontos de uso de droga e muita gente aparentemente em situação ou moradores de rua.
No dia da corrida, era possível continuar vendo esses contrastes. Logo depois de passarmos pelo Pacaembú (Estádio), passa-se do lado de uma casa assistencial, similar a Casa de Acolhida que temos aqui em Goiânia. Passa-se por lugares belíssimos nessa corrida, mas um olhar atendo te permite ver coisas muito diferentes ao redor. Nunca fiz corrida olhando relógio e preocupado em chegar em primeiro. Corro pelo prazer de ver o que acontece. De olhar cada detalhe das ruas onde passo. Inclusive eu, como torcedor de um time só como o Vila Nova, famoso Tigrão (rs), tendo que me sujeitar a ver integrantes da Torcida Organizada do Corinthians fazendo a festa deles num ponto do percurso. Brincadeiras a parte, achei muito legal, bem bacana. Mostra a faceta alegre do povo brasileiro.
A corrida é apaixonante, maravilhosa e causa uma série de benefícios. Mas me permitiu conhecer muito melhor as cidades por onde passo e me provocou melhoras na minha forma de pensamento e um olhar melhor sobre as coisas.
É complicado pensar em todo o contexto. A raíz dos problemas sociais está muito além do que se vê. Está em nossos lares. Está no poder público. Está na história do Brasil. Está na soberba, na vaidade, na insensatez do povo. Correr é viver, e carrego essa paixão comigo como a forma de um amor intenso e duradouro para toda a vida. Mas a corrida também me fez ficar decepcionado com as coisas que vejo não só nas cidades como visito, mas aqui nas ruas da cidade de Goiânia que não é muito diferente do que sempre vejo. Decepção, porque como alguém de Peixes eu mantenho a alma sonhadora, em que o mundo poderia estar livre dos problemas sociais e cada um carregando consigo um sorriso limpo e puro de quem ama a vida. Não nego que fico cada vez mais triste e profundamente comovido com tantos problemas acometendo o povo brasileiro. Causa decepção. Causa medo. Aflora a vontade de lutar.
Fiz um texto bem simples aqui, mais no intuito de provocar essa discussão de uma maneira bem mais intensa e forte em nós. De que penso que falta mais solidariedade. Falta levar mais ao pé da letra algo que ouvi um tempo atrás, de quem desconheço a autoria: “Mais amor, por favor”.



Ricardo Carneiro Rocha – Licenciado e Bacharel em Educação Física – Personal Trainer.

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